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Indicações dos Globos de Ouro: Destacam o heroísmo e a sobrevivência

O poder do passado, o quanto cada um é moldado e definido pelo que viveu, e a possibilidade de transcender até mesmo o peso dessas limitações é um tema constante entre os filmes indicados para pos Globos de Ouro deste ano. Numa safra forte, que despontou especialmente no segundo semestre, os cinco indicados a melhor drama – 12 Anos de Escravidão, Capitão Phillips, Gravidade, Philomena e Rush – e os cinco indicados a melhor comédia – Trapaça, Ela, Inside Llewyn Davis- Balada de Um Homem Comum, Nebraska e O Lobo de Wall Street – exploram biografias reais e fictícias de pessoas comuns em situações extraordinárias.

12 Anos de Escravidão, um filme de alto impacto que capturou os votantes desde sua estréia no Festival de Toronto, traz a visão do diretor britânico sobre a escravidão nas Américas, do ponto de vista de um homem livre –o músico Solomon Northup, em cuja autobiografia o filme se inspira – e explora como essa intimidade com a liberdade pode ser um tormento a mais e, ao mesmo tempo, a salvação do protagonista. 12 Anos é um dos líderes em indicações, com sete: melhor filme/drama; melhor ator para Chiwetel Ejiofor, que vive Northup; melhores coadjuvantes para Lupita Nyong’o, uma companheira de cativeiro, e Michael Fassbender como o senhor da fazenda obcecado por ela; melhor diretor para McQueen; melhor roteiro para John Ridley e melhor trilha para Hans Zimmer.

Gravidade, um sucesso de bilheteria escrito por pai e filho – o diretor Alfonso Cuarón e Jonás Cuaron, seu filho – coloca uma doutora – Sandra Bullock, indicada a melhor atriz – à deriva do espaço, ao mesmo tempo confrontando a pessoa que ela foi na Terra (literal pano de fundo de toda a sua odisséia no espaço) e desafiando-a a passar todos os limites que ela considerava imposíveis. Além das indicações para o filme, para Cuarón como diretor e Bullock como atriz, Gravidade foi indicada pela trilha de Steven Price.

Baseado em fatos reais – o ataque de piratas da Somália a um navio cargueiro norte—americano – Capitão Phillips traz Tom Hanks no tipo de papel que é sua especialidade: o homem comum que, colocado em situações extraordinárias, revela seu heroísmo e retidão moral. Hanks é o Capitão Phillips do título, um desempenho que lhe valeu uma indicação a melhor ator; seu antagonista é outro homem comum que, levado a extremos, descobre que é capaz de muito mais – o líder dos piratas, interpretado por um estreante, Barkhad Abdi, com uma bem calibrada fusão de fragilidade, determinação e fúria. Conduzindo a trama com seu reconhecido estilo documental, que focaliza tanto o drama dos indivíduos quanto o panorama maior do incidente – o desequilíbrio entre Primeiro e Terceiro mundos- Paul Greengrass ficou com a terceira indicação de Captain Phillips, como melhor diretor.

Philomena é inteiramente sobre a colisão entre passado e presente – Judi Dench, no papel título (que lhe valeu uma indicação para melhor atriz/drama), é uma mulher em busca do filho que lhe foi tirado à força e colocado para adoção, quando ela era uma jovem mãe solteira na Irlanda. O filme, dirigido por Stephen Frears, apoia-se num bem estruturado roteiro assinado por Jeff Pope e o co-astro Steve Coogan e que valeu a Philomena sua segunda indicação.

Rush, uma delicia para os fãs da Fórmula Um, é um bom exemplo da visão internacional dos Globos de Ouro, refletindo a paixão pelo esporte que domina os mercados fora dos Estados Unidos. Indicado a melhor filme/drama , Rush também emplacou uma indicação para melhor ator coadjuvante para Daniel Brühl por sua precisa re-criação do complicado astro da Fórmula Um Nikki Lauda.

A safra de comédias deste ano é definitivamente dramática, e também lida com o tema do peso do passado e da coragem descoberta sob pressão. Primos-irmãos em temática e estética, Trapaça e O Lobo de Wall Street mostram universos onde indivíduos tentam se reinventar em meio a corrupção, crime e abusos de todo tipo. Trapaça é o líder de indicações com sete – melhor filme/comédia ou musical, melhor ator/comédia ou musical para Christian Bale, melhor atriz/comédia ou musical, para Amy Adams, melhor coadjuvantes oara Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, melhor roteiro para Eric Singer e David O. Russell e melhor diretor para David O. Russell. Lobo tem duas – melhor ator/comédia ou musical para Leonardo di Caprio e melhor filme/comédia ou musical.

Aumentando o paralelo entre os dois concorrentes, ambos se baseiam em fatos reais num passado não muito distante – uma operação do FBI, nos anos 1970, para tentar conter a corrupção entre os políticos de Nova York, em Trapaça, e a ascensão e queda de um operador da bolsa, nos anos 1980, em Lobo.

Uma delicada reflexão sobre as relações de família ao longo das gerações, Nebraska recebeu cinco indicações, incluindo o notável desempenho de Bruce Dern como um pater familias que pode ou não estar inteiramente desconectado com o mundo a sua volta (melhor ator/comédia ou musical), June Squibb como sua esposa irritadiça (melhor atriz coadjuvante), melhor roteiro para Bob Nelson, melhor diretor para Alexandre Payne e melhor filme/comédia ou musical.

Um tour de force de imaginação, Ela traz um outro tipo de desconexão – a de seu protagonista, Joaquin Phoenix (indicado a melhor ator/comédia ou musical) com o tempo presente, e sua libertação através da mais inusitada das relações – com o novo sistema operacional do seu computador. Além de Phoenix Ela recebeu indicações a melhor filme/comédia ou musical e melhor roteiro para seu realizador Spike Jonze.

Inside Llewyn Davis- Balada de Um Homem Comum, por fim, tem outra vítima da prisão do passado – o Llewyn Davis do título, magnificamente interpretado pelo indicado Oscar Isaac, um aspirante a astro folk na Nova York do começo dos anos 1960, perpetuamente assombrado pela perda de seu parceiro. Indicado a melhor filme/comédia ou musical, o filme dos irmãos Coen também emplacou uma indicação a melhor canção com “Please Mr. Kennedy”.

Agora só resta esperar o dia 12… e torcer muito por seus favoritos.

Ana Maria Bahiana