GLOBAL

O cinema brasileiro pode fazer sucesso lá fora?

Uma das perguntas mais frequentes que me fazem é : o que falta para o cinema brasileiro fazer sucesso lá fora? Eu costumo responder que tudo depende das definições de “cinema brasileiro”, “sucesso” e “lá fora”.

Neste momento, o filme que melhor serve de guia para deslanchar essa conversa é O Ardor (El Ardor), que faz parte da seleção oficial do Festival de Cannes deste ano.

Escrito e dirigido por um argentino – Pablo Fendrik, uma carreira definitivamente em ascensão – e estrelado por um mexicano – Gael Garcia Bernal – e uma brasileira – Alice Braga, o filme se passa e foi filmado na Amazônia brasileira, e é co-produzido pela argentina Magma Cine, a brasileira Bananeira Filmes, a mexicana Canana Films e as norte-americanas Manny Films e Participant Media.

Por mais incrível que possa parecer, este é um bom modelo para avaliar todos os conceitos acima.

Seria O Ardor um representante do cinema do Brasil? Considerando o atual estado de coisas no mercado interncional, sim. O aumento dos custos de produção e marketing, a complexidade da distribuição em diversas plataformas, mundo afora, e o esgotamento de várias fontes de financiamento (os largos bolsos dos independentes-de-luxo norte americanos, para citar só uma…) tornou a co-produção a forma mais eficiente de realizar projetos. Somam-se não apenas as fontes financeiras mas também os talentos criativos, as equipes, as locações.

Um filme com uma única identidade nacional a partir de quem pagou as contas, de onde nasceu o diretor e de qual idioma é falado em cena está se tornando a exceção, não a regra. Num mercado cada vez mais complicado e competitivo, a vantagem está do lado de quem sabe somar esforços e recursos.

Principalmente se o projeto tem a possibilidade de alcançar plateias além de um único mercado. O que nos leva a pensar sobre os conceitos de “sucesso” e “lá fora.”

Não há absolutamente nada errado em um filme ter boas bilherias exclusivamente no país que fala seu idioma e de onde provêm a maior parte de seus atores. Não há nada errado em um filme que faça boas bilheterias em uma região desse mesmo pís. A ocupação do mercado interno é o passo mais importante que qualquer produção audiovisual pode dar. A indústria norte americana não seria a potência que é hoje se não tivesse, primeiro, criado uma vigorosa e saudável plateia em casa, mesmo. É essa mesma força que sustenta a maior industria audiovisual do mundo em volume de produção: a India.

Se alimentar e fomentar o mercado interno é bom para Bollywood e Hollywood, por que não seria para o Brasil?

Nem todo filme, para usar o jargão da indústria, “viaja”. Para que um filme “viaje” – alcance plateias além de fronteiras - ele precisa ter duas coisas : um nível de acabamento técnico compatível com as outras produções disponíveis no mercado; e elementos em sua narrativa que plateias variadas não apenas compreendam, mas se deixem engajar.

Drama, ação, aventura e, até certo ponto, terror e suspense, viajam bem melhor que comédia porque falam de e para sentimentos humanos essenciais: medo, dor, esperança, compaixão. Comédias – com exceções, é claro – em geral sinalizam o riso através de referências sociais e culturais especifícas dos costumes, inclinações e história de um determinado mercado.

Um filme pode viajar estritamente pelo circuito de festivais – uma trilha nobre cujo grande mérito não é apenas a distribuição de prêmios, mas a exposição de um trabalho a uma variedade de novas plateias. Ou pode se estender para além, para a distribuição comercial. Uma ou outra coisa pode ser definida como “sucesso” – e nesse caso acrescentaria que O Ardor, que traz a marca do Brasil e tem temas comns a várias culturas – a luta pela terra, a perda de alguém querido , o fraco conta o forte – como um grande candidato ao sucesso.

Voltamos então à pergunta inicial – repensados os conceitos de “brasileiro”, “sucesso” e “ lá fora”, temos todas as oportunidades para dialogar com várias platéias mundo afora. É só escolher bem os projetos, somar forças e não ter medo de ir para o mundo.

Sem esquecer que a base de tudo é a força da platéia que se deixou em casa.

Ana Maria Bahiana