Geografia do Cinema: Roma, Alfonso Cuarón

by Rui Henriques Coimbra February 8, 2019
A scene from "Roma", 2018

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Quando falamos de cinema, nem tudo é exagero, ficção ou imagem criada por computador. Nesta série olhamos os locais concretos e familiares. Hoje, a casa no bairro Colónia Roma na Cidade do México, epicentro e coração daquilo que Alfonso Cuarón nos quis dizer no filme Roma.

 

Das comédias musicais aos efeitos especiais que nos maravilham nos filmes de ficção científica, o cinema épico de grande ecrã tem geralmente uma componente tão fantasiosa que quase nos faz esquecer que vivemos neste planeta e nesta civilização. Mas há, também, outros filmes que estão ligados intimamente a uma geografia. A um país. A um bairro. Uma casa num final de século.

O último trabalho do realizador mexicano Alfonso Cuarón, Roma, vencedor do último Festival de Cinema de Veneza e e recipiente de dois Golden Globes - melhor filme estrangeiro e melhor diretor, é sobre um desses lugares bem determinados. “Roma é o nome do bairro onde a ação se desenrola. O bairro chama-se Colonia Roma e fica na Cidade do México”, referiu Cuarón quando, recentemente, se reuniu com a Hollywood Foreign Press Association. “A memória não é apenas uma imagem. Traz com ela um sentido de lugar e espaço. O meu filme tenta honrar um certo lugar no espaço e um determinado momento no tempo. Lugar e época completam-nos. As pessoas vivem o seu presente. Aliás, só podem mesmo viver naquele tempo, naquele sítio”.

Behind the scenes o "Roma", 2018

Alfonso Cuarón e Yalitza Aparício na casa/set/personagem de Roma.

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O realizador e guionista concede que a vista panorâmica da habitação encontrou pontos de fricção. A perceção da casa, não é, por si, pacífica. “Li críticas em que se dizia que a casa era típica da classe média-alta. Não era nada. A nossa casa era classe média baixa. A mobília era velha. Havia muita infraestrutura a precisar de conserto”, referiu Cuarón. Fosse como fosse, aquele lugar foi feito o epicentro da história que se conta. “A existência humana pode ter muita solidão. Todos nós estamos sozinhos. Mas aquilo que mais dá valor e sentido à nossa existência é o laço de afeto humano que nos liga aos outros. Todo o ritmo da história vem dessas ligações humanas que estabelecemos”.

O que nos, traz, por si, de volta à casa que vemos no filme. “Se eu for tentar lembrar as melhores recordações que tenho da vida, com sensações de alegria pelo meio, acho que em primeiro lugar me surgiriam memórias da vida passada à volta da cozinha. Lembro-me de ser muito jovem e de passar muitas das minhas horas vagas na cozinha, exatamente por ser um lugar de carinho e sustento. Era isso que reunia toda a gente à volta da cozinha”.

No caso do filme Roma, a película separando cinema e geografia quase não podia ser mais fina e transparente. “Senti momentos de grande dor porque, durante a produção do filme -- uma vez terminada a logística e a procura dos carros adequados à época, os locais, os atores, o guarda-roupa e os mil pormenores – fui confrontado com o meu passado. Foi como revisitar o meu antigamente. Lá estavam as mesmas pessoas. Os atores que se pareciam como a minha família. No mesmo sítio. Rodeados pela mesma mobília e recriando cenas que eu tinha escrito, cenas que muitas vezes me causavam grande dor. Acabou por ser uma coisa muito complicada”.

Vencedor de dois Golden Globes, o historial daquela casa e daquelas relações humanas no bairro de Roma continua a ser exibido nalguns cinemas e, ainda, no canal da Netflix.