Na Temporada-Ouro, "Ganhar" Quer Dizer Muitas Coisas Diferentes. In The Yearly Gold Rush, "Winning" Can Mean A Lot of Different Things.

by Ana Maria Bahiana February 29, 2016

Alejandro G. Iñarritu (top); (bottow, l-r): Emmanuel Lubezki; Gael Garcia Bernal; Gabriel Osorio and Pato Escada;Oscar Isaac.

HFPA and Getty Images

Awards can mean a lot of things to a lot of different people. For Latin American talent, this was a glorious season.

Todos os discursos foram feitos, todos os modelitos, desfilados, todo o dinheiro, gasto – em campanhas, estratégias, festas, promoções. A temporada-ouro 2015-2016 terminou como suas antecessoras: refletindo não exatamente o que se passa na sociedade e na indústria, mas nos gostos e preferências de quem escolhe indicados e vencedores. Não é um processo justo, como nada na vida é justo – mas, de um modo quase esotérico, acaba sublinhando os temas que realmente importam naquele momento, mesmo que não dê a eles nem atenção nem estatuetas.

É um testemunho do poder do cinema, mesmo numa era em que está “em crise” (ó céus, o cinema está crise há mais de um século…): suas representações simbólicas de nossas vidas na plateia despertam nossas paixões, criam torcidas, representam coisas diferentes para cada um de nós. Durante três meses, do anúncio das indicações aos Globos de Ouro, no começo de dezembro, até a entrega dos Oscars, no último domingo de fevereiro, prêmios e possibilidades de prêmios nos fizeram ver mais filmes, definir nossos gostos, discutir – internamente, com amigos, nas mídias sociais – nossas opiniões.

Curiosamente, a cada ano esta temporada atrai menos espectadores para a transmissão do, digamos assim, capítulo final da novela. É um problema que afeta todas as entregas de prêmios, embora eu folgue em dizer que os Globos de Ouro são os que menos tem sofrido esse desgaste, em grande parte por conta da expansão internacional da marca e da transmissão. Curiosamente também, ao mesmo tempo em que a audiência da transmissão cai, sobe o tráfico de mídia social e acesso aos sites dos prêmios – o nosso, dos Globos, de maneira espetacular nos últimos dois anos, especialmente este agora.

Aí está a primeira lição da temporada-ouro 2016: não é a atração do cinema que está em baixa, é o modo de dialogar com ele e sobre ele.

Este foi o ano em que todo mundo queria falar de diversidade. Isso é bom. A temporada-ouro sempre foi uma ótima caixa de ressonância para as causas do momento, da oposição à guerra do Vietnã à campanha por um estado Palestino, dos direitos indígenas à inclusão LGBTQ , do meio ambiente à paridade de salários entre profissonais. Há uma plateia cativa de pessoas influentes a seus pés e alguns milhões de espectadores pelo mundo afora. Por que não levantar a bola?

Diversidade, este ano, quis dizer principalmente a falta de indicações para atores afrodescendentes. É um sintoma, mas não é a doença. A doença é uma indústria  dominada por homens brancos anglo-americanos. Os Globos, de novo, tem um corpo votante tão diverso – 55 países/idiomas/etnias/culturas- que a diversidade vem naturalmente. Mas não somos a indústria, somos observadores da indústria. A Academia e as Guildas sim são a indústria, e suas escolhas nascem de um status quo onde, segundo uma pesquisa recente da Universidade do Sul da California, 85% dos diretores são homens, e 71% dos papéis com falas são entregues a atores e não a atrizes (72% desses 71% são brancos e anglos).  São as oportunidades, as histórias, os pontos de vista que tem que mudar para incluir a narrativa da real sociedade do século 21, multifacetada, complexa e onde todos aspiram viver fiéis a si mesmos.

Então este é o ângulo pelo qual quero lembrar esta temporada-ouro: que este foi o ano em que um filme brasileiro foi indicado ao Oscar (O Menino e o Mundo, de Alê Abreu); o ano em que um filme colombiano (O Abraço da Serpente) foi indicado ao Oscar pela primeira vez; o ano em que um filme chileno ganhou um Oscar - o curta de animação Historia de um oso (Bear Story), de Gabriel Osorio e Pato Escala; o ano em que dois atores latinos – o guatemalteco Oscar Isaac e o mexicano Gael Garcia Bernal –venceram nos Globos (e um brasileiro, Wagner Moura, foi indicado) ; o ano em que um realizador mexicano, Alejandro Gonzalez Iñarritu,  venceu Globos e Oscar de diretor pela segunda vez seguida (e um mexicano, Alfonso Cuaron, já tinha levado esses prêmios em 2014); o ano em que um diretor de fotografia mexicano, Emmanuel Lubezki, levou para casa seu terceiro Oscar consecutivo (isso depois de ter sido indicado cinco outras vezes).

Prêmios são lindos e badalados e queimam bem na fogueira das vaidades mas, no plano geral, valem pelas portas que abrem, pelas comunicações que se estabelecem, pelos projetos que viabilizam. Não se enganem: estratégias e estrategistas valem, mas no fim das contas é essa mistura rara de talento, persistência, trabalho, humildade e clareza que garimpa o solo duro até o ouro verdadeiro. Não o de tolo. Esse já tem muito por aí.