Steve McQueen Explora o Passado em ‘Small Axe’

by Barbara de Oliveira Pinto November 13, 2020
Writer, director, producer Steve McQueen

magnus sundholm/hfpa

Depois de Viúvas, Steve McQueen volta a assumir o papel de realizador com uma série de cinco filmes intitulada Small Axe. Trata-se de um projeto televisivo produzido pela BBC, que nos convida a viajar através de algumas histórias pessoais da comunidade caribenha, em Londres, entre os anos 60 e 80. Convencido do impacto desta comunidade na cultura britânica, McQueen afirma não ter baixado os braços até ver esta antologia financiada e com luz verde para avançar.

Até que ponto é que esta série é autobiográfica?

Estes cinco filmes refletem a minha viagem através do sistema educativo britânico. Cresci nesta comunidade. Escrever este material foi algo de muito orgânico para mim. Eu sabia que algum dia teria de contar estas histórias, mas só senti capacidade para o fazer, agora, nos meus 50. Só agora sinto que tenho a maturidade necessária para fazer justiça a estas narrativas. A comunidade caribenha foi muito influente no desenvolvimento da cultura britânica. Sempre tive uma enorme vontade de partilhar este pedaço de cultura com o público. Tive muita sorte em ter tido o apoio da BBC e da Amazon.

Depois de ter tido o projeto aprovado, como geriu o trabalho como realizador?

Eu conhecia o material de trás par a frente. Escrevi-o. Isso, para mim, basta. Essa é a minha preparação. Nunca faço story boards. Gosto de sentir o momento e de improvisar durante a rodagem. O importante é conhecer o guião e refletir sobre a mensagem. O resto, acontece no dia e na hora, com toda a equipa e com os atores.

A scene from "Mangrove", part of the "Small Axe" antology

Uma cena de Mangrove, parte da antologia Small Axe.

 

Suponho, então, que não seja adepto de ensaios com os atores, certo?

Não se pode ensaiar a verdade. Para mim, é um privilégio poder trabalhar com pessoas que escolheram como profissão refletir a essência de quem somos. Os atores, mais do que eu, sabem fazê-lo. O meu trabalho é, apenas, criar um ambiente no qual podem confiar.

Os atores têm de sentir-se seguros para poderem exprimir o mais íntimo de si. Eu, como realizador, tenho de fazer com que todos os membros da equipa, desde o eletricista até ao diretor de fotografia, contribuam para um ambiente propício à liberdade de expressão dos atores.

Depois , de um Globo de Ouro, e de um Bafta, houve alguma coisa que mudou na sua maneira de fazer arte?

Não. Aliás, no dia antes de começar as filmagens de Small Axe não consegui dormir. Não tinha a certeza se ia conseguir, ou não, concretizar o projeto. Independentemente dos prémios, a ansiedade nunca se esvaiu. As dúvidas, as inseguranças, estão sempre lá. Esses reconhecimentos são mais para a minha família, que sacrificou muito para educar-me, do que propriamente para mim.

O que mudaria no mundo da arte, neste momento?

Precisamos de mais diversidade em lugares de proa. Mais mulheres, mais pessoas de cor. Se assim não for, o mundo torna-se cego e surdo.

 

Steve McQueen decidiu dedicar Small Axe a George Floyd e a todas as pessoas negras que foram mortas, nos Estados Unidos, no Reino Unido, e por todo o mundo.