Uma Conversa com Muhammad Ali Sobre Cinema, Discos Voadores e o Boxe como Show

by Ana Maria Bahiana June 4, 2016
Muhammad Ali in 1979 and in a scene from "Freedom Road'

Muhammad Ali numa cena de ' Freedom Road' e na entrevista com a HFPA, em março de 1979.

HFPA Archives

Celebrating the life of Muhammad Ali with a look back to an unusual encounter with the boxing great-turned-actor.

No final de março de 1979 a Hollywood Foreign Press Association recebeu uma visita muito especial e, de certa forma, inusitada: Muhammad Ali, gigante do boxe, ícone pop, figura de proa das mudanças sociais e culturais dos anos 60. Quinze anos depois da espetacular vitória sobre Sonny Liston que o tornou o mais jovem campeão mundial de pesos pesados, Ali estava prestes a anunciar sua aposentadoria do esporte do qual se tornara mito.

Suas lutas fora do ringue- pelos direitos civis, pela igualdade racial, contra a guerra do Vietnã (que lhe valeram a suspensão de sua licença de boxeador profissional e o levaram aos tribunais, num caso legal célebre que terminou na Suprema Corte)- estavam no passado.  Duas grandes lutas-evento contra Joe Frazier– Rumble in The Jungle em Kinshasa, no Zaire, e Thrilla in Manila, na capital das Filipinas – haviam sido mais confuses que propriamente bem sucedidas.

Por curiosidade, para explorar novas possibilidades, Ali  dissera “sim” à oferta de atuar ao lado do então popularíssimo ator Kris Kristofferson num filme para a TV: Road to Freedom, sobre a vida e as lutas não de um boxeador, mas de um senador norte americano, Gideon Jackson, um ex-escravo que ascendera na vida política do século 19, depois da Guerra Civil norte-americana.

Aos 37 anos, cheio de vigor apesar dos inúmeros ferimentos e lesões (inclusive uma infecção séria em uma perna, resultado de uma luta amistosa no Japão, em 1976), Ali estava animado com a nova ocupação. Na verdade, ele via uma conexão entre seu estilo de lutar – veloz, dramático, pontuado por suas famosas interjeições – e entretenimento: “A maioria dos boxeadores são atletas, mas comigo sempre foi show business”, ele disse. “Os poemas, os desafios, as disputas com meus oponentes… toda essa atividade eu diria que é show business, 60% e boxe 40%. Eu sou mesmo único e fora do comum.”

Ali revelou acreditar em discos voadores – “já vi uns 50, 60 deles. É só olhar pro céu numa noite clara” – e , como muçulmano devoto que era desde 1962, apoiar a revolução dos aiatolás no Irã – “quando um homem governa inspirado por deus, baseado nas escrituras, acaba a prostituição, a jogatina, a violência.” Seu filme favorito? “Os 10 Mandamentos, porque é sobre os milagres de deus.”

Profético, ele abordou um dos temas mais quentes do momento na indústria: a pouca representatitvidade de atores e atrizes de diferentes etnias em filmes e na TV: “Eu acho que não permitem que atores e atrizes negros façam bons filmes. Acho que é uma conspiração. Não sei se é uma conspiração de Hollywood ou se está só na minha cabeça, mas não querem que atores negros e belas atrizes negras sejam vistas na tela.”

Ali nunca mais faria outro trabalho na tela como ator. Seria tema de documentários e teria uma participação como ele mesmo num episódio da série de TV Diff’rent Strokes, sucesso nos anos 1980. Retornaria ao ringue em 1980 para duas outas desastrosas que resultaram em derrota. Segundo Sylvester Stallone, que estava na plateia de uma dela, era como “ver a autópsia de um homem ainda em vida.”.

Quando nos encontramos novamente, em 2001, durante a divulgação da cinebio Ali, de Michael Mann, o Rei do Boxe já lutava contra um inimigo muito mais insidioso – o mal de Parkinson, que finalmente o levaria, aos 74 anos, no dia 3 de junho de 2016.