José Padilha: Narcos, guerra às drogas e o cinema de autor José Padilha on war, drugs and auteur cinema

by Ana Maria Bahiana October 9, 2015

José Padilha an Wagner Moura on the Narcos set, Medellin, Colombia,

Daniel Daza/Netflix

With Netflix’s Narcos shooting its second season in Colombia, series producer/diretor José Padilha looks back on season 1 and evaluates the role of the new streaming and TV platforms for filmmakers and audiences alike. Com uma longa carreira no cinema brasileiro, dos documentários Ônibus 174 e Garapa ao mega-sucesso dos dois Tropa de Elite, José Padilha vem fazendo uma sólida carreira internacional, primeiro com o longa RoboCop, em 2014 e, este ano, com a série Narcos, da Netflix, um “olhar diferente” (palavras de Padilha) sobre a evolução do narcotráfico na América Latina, estrelada pelo assíduo colaborador de Padilha, Wagner Moura, no papel do mega traficante Pablo Escobar. A série, que começou como um pitch do produtor Eric Newman durante as filmagens de RoboCop, está neste momento filmando sua segunda temporada na Colômbia. Nesta conversa exclusiva, Padilha faz o balanço de sua experiência com a primeira temporada e reflete sobre o impacto dos novos canais de distribuição. Qual foi sua reação quando Eric Newman propôs a ideia central do que viria a ser Narcos? _Eu me interessei imediatamente. Mas na hora eu sabia que não queria contar mais uma versão da caçada a Pablo Escobar. Eu sabia que não queria contar a história de como um cartel foi desmantelado. Não queria fazer mais uma história da “guerra às drogas”. Eu queria contar toda a história, desde o começo, desde lá de trás, com todos os detalhes, todas as implicações. É uma coisa que me interessa muito, me interessa pessoalmente. Por que? _Porque todos nós sofremos, não é? Toda a América Latina sofreu e sofre, o Brasil sofre com problemas ligados às drogas… A tal da “guerra às drogas” quer resolver a questão atacando a oferta sem nem pensar no que realmente impulsiona o tráfico – a demanda. Para realmente enfrentar a questão das drogas o que tem de ser encarado é a demanda, e a demanda não é um problema de polícia, é um problema social, psicológico, médico. O que é muito mais complicado… Quando Reagan anuncia a “guerra às drogas” ele coloca o ônus do problema da demanda em cima dos usuários, como se dependesse exclusivamente deles “dizer não” a algo que é muito mais complexo. Eu sublinhei isso naquela hora em que Nancy Reagan diz “just say no” e a cortamos para o Gacha (o personagem de Luiz Guzmán) sendo baleado e gritando “no, no, no”! É sua primeira incursão na TV – o que achou da experiência? _ Gostei muito. É um processo diferente, no qual você tem que delegar muitas coisas, e tem de estar preparado para um longo processo de criação e execução. Mas acho que consegui por minha marca , minha estética, no resultado final. Claro que tive que brigar um pouco – insistindo em filmar em locação na Colômbia, por exemplo. E não em estúdios na Colômbia, como a Netflix tinha sugerido. Mas em locação mesmo – para mim era o único modo de ser coerente com a proposta da série. Como realizador, como você avalia o trabalho com uma plataforma como a Netflix, comparado com suas outras experiências? _Eu tive três experiências muito diferentes no meu trabalho: meus filmes no Brasil, o Robocop num grande estúdio e agora Narcos com a Netflix. Meus filmes no Brasil eu tive 100% controle artístico de tudo. No filme de estúdio, o RoboCop, eu passava mais de metade do meu tempo brigando pelas minhas ideias. Um orçamento imenso. E eu tinha que lidar com dois estúdios, Sony (que distribuiu o filme) e MGM (que detinha os direitos do personagem) com várias preocupações relativas ao marketing, aquela coisa tradicional de Hollywood, que é como tem que ser, porque os caras estão investindo muito dinheiro e tem toda razão de estarem preocupados e quererem dar a opinião deles. E agora, o Netflix. Onde eu tive enorme liberdade criativa de novo. O modelo do Netflix é diferente do cinema comercial e da TV aberta – eles não precisam se preocupar com a renda que vai ou não vir depois do projeto ser exibido. Eles tem esses recursos independente disso, porque seu modelo é de assinaturas, são os assinantes, os especatdores, que custeiam os projetos. É o modelo da HBO também, que comprovadamente já deu ótimos resultados. Plataformas como a Netflix estão se tornando o novo cinema independente? _Sim, acredito nisso. Eu tive completa liberdade – para escolher meu elenco, minha equipe, ter o Lula (Carvalho) na fotografia, a trilha do Pedro Bromfman, os diretores dos episódios depois dos dois primeiros (entre eles está o brasileiro Fernando Coimbra, de O Lobo Atrás da Porta), o Wagner como Escobar… Pude preservar minha visão da série, o visual, as cores, a locação na Colombia, o tom da narrativa. O modelo de produção que vem de uma base de espectadores realmente funciona para quem faz e para quem vê. Interessante porque outro dia eu estava lendo um artigo do Arnaldo Jabor em que ele lamentava o fim do cinema de autor no Brasil. É o oposto do que está acontecendo fora do Brasil com Netflix e coisas assim – justamente na hora em que os grandes estúdios estão investindo apenas em grandes projetos comerciais, franquias , é o renascimento do cinema de autor.

Ana Maria Bahiana