Love & Mercy: o universo musical de Brian Wilson traduzido em cinema

by Ana Maria Bahiana July 16, 2015

HFPA

How Brian Wilson’s brilliant genius and complex life was finally brought to the screen.

“Eu não escuto muito bem, tenho só um ouvido, o da direita é surdo. Então eu procuro concentrar o som…”. Brian Wilson está tentando nos explicar algo que atormenta gênios musicais há décadas: como colocar em palavras um processo de criação que não precisa delas. Numa tarde ensolarad de quase verão no salão de festas de um hotel de luxo em Beverly Hills, Brian passa os dedos suavemente sobre as teclas do piano, à guisa de resposta. Aos poucos, notas e pequenos fragmentos vão se juntando e formando a conhecida linha melódica de “God Only Knows”. E todo o seu rosto, contraído pelo esforço de lidar com seres verbais – nós, os jornalistas - relaxa, se ilumina. Ele sorri: achou a resposta. “Eu ouço tudo na minha cabeça. Depois é só fazer.”

Brian Wilson, um dos maiores compositores, arranjadores, músicos e intérpretes não apenas do rock, mas de toda a música popular do século 20, estava nos concedendo uma raríssima entrevista, para promover um pequeno filme independente no qual está profundamente envolvido: Love & Mercy, do veterano produtor Bill Pohlad (Brokeback Mountain, Na Natureza Selvagem, Árvore da Vida, 12 Anos de Escravidão) estreando agora na direção. Inspirado pela biografia Heroes & Villains, de autoria de Michael Alan Lerner (que também contribuiu para o roteiro, com Oren Moverman) e realizado com a colaboração de Wilson e de sua esposa Melinda Lebbetter, Love and Mercy é a concretização de um sonho de Pohlad, obcecado com Pet Sounds, de 1967, e ainda mais pelo box set The Pet Sounds Sessions, de 1997, que documenta o processo de criação do o álbum-obra-prima de Wilson e dos Beach Boys. Depois de mais de 15 anos de trabalho, começos e recomeços – e vários outros filmes menores, muitos de TV, que tentaram biografar Wilson e só conseguiram irritar os fãs e a família – Pohlad finalmente se convenceu que assumir a cadeira de diretor era o único modo de trazer a história para a tela.

Uma solução interessante que ele encontrou foi dividir o personagem Brian Wilson entre dois atores: Paul Dano e John Cusak. Dano é o jovem Brian Wilson dos anos 1960, no auge de seus poderes criadores, trabalhando no álbum com o qual ele planejava “provocar os Beatles “ – Pet Sounds – e começando a se interessar pelas drogas que agravariam seus problemas cognitivos e emocionais. John Cusak é o Brian Wilson de meia idade nos anos 1980, em total crise de saúde mental, e vivendo sob o controle de um psiquiatra tirânico (Paul Giamatti). “Começamos a filmar justamente no estúdio onde Brian gravou Pet Sounds”, Dano conta. “E, fiel ao espírito de Brian, tentei invocar quaisquer espíritos ou anjos que estivessem por ali para vir nos visitar de novo. Porque ele sempre se sentiu conectado com algo maior que ele mesmo.” “Foi uma honra e, ao mesmo tempo, algo muito difícil”, diz Cusak. “Porque Brian ainda está vivo e passou por períodos sombrios, mas é uma pessoa cheia de vida e sua história ainda não chegou ao final. Eu não queria desapontá-lo, queria que ele se sentisse bem ao ver nosso trabalho.”

“O filme me surpreendeu”, Brian diz, os dedos ainda passeando pelas teclas, formando frases dispersas de “Rhapsody in Blue”, de Gershwin. “Me surpreendeu principalmente a parte do meu encontro com (a futura esposa) Melinda (vivida por Elizabeth Banks) . O momento em que nosso namoro começou. Foi bonito ver isso.”

Brian faz uma longa pausa e concentra-se no piano. Brian toca, concentrado, durante alguns minutos e a abertura de “Rhapsody in Blue” vem inteira, forte, enchendo o salão e os jardins do hotel. Depois ele apenas sorri. “Eu acredito no amor. Amor para mim é música. Amor é “Rhapsody in Blue”. É onde Deus está. Eu rezo a Deus todos os dias e agradeço por estar vivo.”

Ana Maria Bahiana